sexta-feira, 29 de maio de 2020

Riscos da interiorização da Covid-19: 7,8 milhões de brasileiros estão a quatro horas de distância do atendimento adequado

EcoDebate Em 16 de maio, 60% dos 5.570 municípios brasileiros já tinham registrado casos da doença e 21% contavam ao menos um óbito

Mais de 7,8 milhões de brasileiros estão a pelo menos quatro horas de distância de um município que ofereça atendimento de alta complexidade, com Unidade de Terapia Intensiva (UTI), equipamentos e pessoal especializado para doenças respiratórias graves e agudas provocadas pela epidemia de Covid-19.

Essa é uma das principais conclusões da mais recente análise dos pesquisadores do Instituto de Comunicação e Informação em Saúde (Icict), da Fiocruz.

Publicada na nota técnica do sistema MonitoraCovid-19 (bigdata-covid19.icict.fiocruz.br) intitulada Regiões e Redes Covid-19: Acesso aos serviços de saúde e fluxo de deslocamento de pacientes em busca de internação, a análise mostra que a situação é pior nos estados de Amazonas (1,3 milhão de habitantes), Pará (2,3 milhões) e Mato Grosso (888 mil).

Nessas três unidades da federação, mais de 20% da população mora em áreas com até quatro horas de deslocamento para chegar ao município mais próximo que ofereça condições de atendimento em casos graves de Covid-19.

Outras regiões com elevado percentual de população que leva mais de quatro horas de deslocamento até um município que ofereça atendimento especializado são o interior do Nordeste, o norte de Minas Gerais e o sul do Piauí e do Maranhão.

A análise da equipe do Icict/Fiocruz cruzou as informações de hospitalização por problemas respiratórios (entre eles a Covid-19) do banco de dados do Sivep-Gripe, do Ministério da Saúde, com os deslocamentos populacionais e as distâncias potencialmente percorridas pela população, considerando as Regiões de Influência das Cidades (IBGE, 2018) e as Regiões de Saúde (CIR) definidas pelas Secretarias Estaduais de Saúde.

A nota técnica constatou também a rapidez da interiorização da Covid-19. Por exemplo, em apenas uma semana (de 9 a 16 de maio), nos municípios com população entre 20 e 50 mil habitantes, a cada dia seis cidades registravam pela primeira vez uma vítima fatal de Covid-19. Entre municípios menores, com população de 10 a 20 mil habitantes, na mesma semana cinco cidades a cada dia entravam na lista de municípios com óbitos por Covid-19.

Na mesma semana, em média, nos municípios com menos de 50 mil habitantes, a cada dia 15 cidades apresentavam pela primeira vez casos de Covid-19 por dia. O primeiro caso de infecção por Covid-19 foi registrado em 227 municípios com população menor que 10 mil habitantes; em 197 com entre 10 e 20 mil habitantes; e em 112 com entre 20 e 50 mil habitantes.

Até 16 de maio, 60% dos municípios brasileiros registravam casos da doença e 21%, óbitos. Nos municípios com população acima de 50 mil habitantes, 98% apresentavam casos e 58%, óbitos.

A nota técnica destaca a importância da integração e do diálogo entre municípios, estados e União nas políticas de contenção da Covid-19 e mostra o desafio representado pela interiorização:

“Um dos grandes problemas para a rede de saúde brasileira é a acessibilidade geográfica. O Brasil possui dimensões continentais e, por isso, algumas regiões mais remotas impõem à sua população o deslocamento de enormes distâncias para busca de atendimento (…) É evidente que nem todos os municípios do país devem ter um centro de tratamento intensivo, mas é necessário definir serviços de referência e contrarreferência no atendimento à saúde, evitando vazios de atendimento, bem como deslocamentos longos, que podem afetar o estado de saúde do indivíduo”, diz a nota técnica.

A nota ainda conclui que a definição e utilização de regiões compostas por conjunto de municípios é o caminho para adoção de medidas de restrição ou relaxamento do isolamento social.

Leia a nota na íntegra.

Fonte: Icict/Fiocruz

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 25/05/2020

Riscos da interiorização da Covid-19: 7,8 milhões de brasileiros estão a 4 horas de distância do atendimento adequado, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 25/05/2020, https://www.ecodebate.com.br/2020/05/25/riscos-da-interiorizacao-da-covid-19-78-milhoes-de-brasileiros-estao-a-4-horas-de-distancia-do-atendimento-adequado/.
Foto: Agência do RadioMais
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Condicionante da LOC diz que Vale deve realocar moradores em situações de risco de rompimento de barragens

Nivaldo Ferreira dos Santos* 

Entre as condicionantes estabelecidas pelo Conselho Estadual de Política Ambiental (Copam), em 18 de maio de 2000, ao conceder a Licença de Operação Corretiva (LOC) do Complexo Minerador de Itabira à então Companhia Vale do Rio Doce (atualmente Vale S/A), destacamos neste texto a condicionante nº 9, cujo texto diz:

“9. Apresentar Plano de Contingência para as situações emergenciais e a mitigação de eventos catastróficos, tais como derramamento de material tóxico, rompimento de Barragens e Diques de contenção.

– Prazos: a) Apresentação da APP – Análise Preliminar de Perigos – até dez/2000; b) Apresentação do Plano de Contingência – até jul/2001.”

De acordo com o relatório elaborado pela Superintendência Regional de Regularização Ambiental do Leste Mineiro (Supram-Leste) em 2012, essa condicionante foi cumprida, mas a “análise” da condicionante é muito resumida, informando apenas que foram apresentados estudos “em prazos acordados com a Feam.”

Confira o relatório no arquivo disponível em http://www.reunioes.semad.mg.gov.br/down.asp?x_caminho=reunioes/sistema/arquivos/material/&x_nome=Item_9.1._Vale_S.A.pdf).

É interessante observar que essa condicionante prevê a apresentação de um “Plano de Contingência para situações emergenciais e mitigação de eventos catastróficos”, lembrando o risco de ocorrer “derramamento de material tóxico” ou “rompimento de Barragens e Diques de contenção”.

Ao afirmar no relatório de 2012 que a condicionante foi cumprida, a informação é que foram apresentados “estudos”, mas nada foi dito sobre a existência (ou não) do “Plano de Contingência” previsto no texto da condicionante.

Infelizmente, durante muitos anos a comunidade e as autoridades municipais não deram muita importância para essa condicionante, pois os riscos de acontecerem problemas com “materiais tóxicos” ou com barragens e/ou diques de contenção só ficaram evidentes mais de uma década e meia depois, quando em 5 de novembro de 2015 a “Barragem de Fundão”, uma grande barragem contendo “rejeitos da mineração”, se rompeu no município de Mariana.

A equipe da Secretaria Municipal de Meio Ambiente entrou em contato com a Vale e a empresa se comprometeu a apresentar informações sobre as barragens de Itabira na reunião seguinte do Codema, o que de fato ocorreu em 19 de novembro de 2015.

Depois disso a Vale apresentou essas informações em outros locais, incluindo a Câmara Municipal, e em dezembro de 2015 foi realizada uma reunião com representantes da Vale, Secretaria Municipal de Meio Ambiente (SMMA) e Coordenadoria Municipal de Defesa Civil (Comdec), ficando estabelecido que a Prefeitura organizaria uma equipe para estudar relatórios sobre as barragens disponibilizados pela Vale.

Nos meses seguintes foi formado um grupo composto por representantes da Comdec e das secretarias municipais de Meio Ambiente, Saúde, Desenvolvimento Urbano, Ordem Pública e Governo, que fez contatos com a Coordenadoria Estadual de Defesa Civil (Cedec) e com a Secretaria Nacional de Proteção de Defesa Civil (Sedec), sendo orientado a providenciar a elaboração do “Plano Municipal de Contingência de Barragens da Mineração”.

Em 2016 esse grupo estudou as normas legais ligadas ao tema e iniciou discussões e ações junto a órgãos públicos estaduais e federais, Codema, entidades civis e a própria Vale, convocando em dezembro de 2016 um encontro com representantes dos vários segmentos envolvidos, além de um integrante da “Equipe de Transição” do atual governo municipal, eleito em 2016.

A Vale informou em reuniões do Codema que se comprometeu com a Coordenadoria Estadual de Defesa Civil a implantar até o final de 2017 as estruturas de alerta à comunidade sobre situações de risco em suas barragens de Itabira, mas em seguida a elaboração do “Plano Municipal de Contingência das Barragens da Mineração de Itabira” foi interrompida, paralisada, esquecida, abandonada…

Até que, cerca de três anos após a “tragédia de Mariana” ocorreu a “tragédia de Brumadinho”, com o rompimento da Barragem 1 da “Mina Córrego do Feijão” em 25 de janeiro de 2019, tirando a vida de quase trezentas pessoas – aí a população de Itabira realmente passou a se preocupar com as barragens e diques de contenção e vários grupos se uniram, mobilizando a comunidade.

E foi criado o “Comitê Popular dos Atingidos pela Mineração em Itabira e Região”, que desde então tem realizado debates, eventos e ações reivindicando maior controle sobre as barragens e até mesmo o descomissionamento, a descaracterização ou a “desmontagem” das grandes estruturas que existem em Itabira. E reivindicam também a retirada dos moradores de comunidades rurais e bairros localizados em regiões que podem ser atingidas caso ocorra o rompimento de alguma dessas estruturas.

Além disso, a Interassociação dos Amigos de Bairros de Itabira e outras entidades da sociedade civil de Itabira realizaram encontros e discussões com equipes da Vale reivindicando informações mais detalhadas sobre as barragens existentes em Itabira e apoio para estruturar melhor a Comdec, além da aplicação da condicionante 46 da “LOC da Vale”, com a realocação de populações de áreas que podem ser atingidas pelo rompimento de barragens.

A Câmara Municipal promoveu, em dezembro de 2019, uma “reunião pública” sobre as barragens e a Vale realizou uma simulação de rompimento de barragem em Itabira. Mas as preocupações da comunidade persistem, uma vez que a Comdec continua sem a estrutura ideal e o “Plano Municipal de Contingência das Barragens da Mineração de Itabira” não foi disponibilizado para toda a comunidade, nem pela empresa nem pela Prefeitura Municipal.

E ainda temos muitas condicionantes para serem lembradas… Até breve!

*Nivaldo Ferreira dos Santos é ex-secretário municipal de Meio Ambiente, líder comunitário, servidor público estadual e mestre em Administração Pública.

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Tratamento: ‘pista’ imunológica traz esperança na luta contra a covid-19

Texto publicado originalmente pela BBC News Brasil
 

Cientistas do Reino Unido devem começar a testar um tratamento que, segundo esperam, possa combater os efeitos da covid-19 nos pacientes mais graves.

Eles constataram que aqueles que desenvolvem a forma mais grave da doença têm números extremamente baixos de uma célula imune chamada célula T.

As células T “limpam” a infecção do corpo.

O ensaio clínico avaliará se um medicamento chamado interleucina 7, conhecido por aumentar o número de células T, pode ajudar na recuperação dos pacientes.

O estudo envolve cientistas do Instituto Francis Crick, King’s College London e do hospital Guy’s e St Thomas’. Eles examinaram as células imunes no sangue de 60 pacientes de covid-19 e encontraram uma aparente queda no número de células T.

Adrian Hayday, do Instituto Crick, disse que foi uma “grande surpresa” ver o que estava acontecendo com as células imunológicas.

“Elas estão tentando nos proteger, mas o vírus parece estar fazendo algo que está puxando o tapete delas, porque seus números diminuíram drasticamente.”

Em uma gota de sangue de microlitro (0,001 ml), adultos saudáveis normais têm entre 2 mil e 4 mil células T, também chamadas linfócitos T.

Os pacientes de covid-19 que a equipe testou tinham entre 200 e 1,2 mil.

‘Extremamente encorajador’

Os pesquisadores dizem que essas descobertas abrem caminho para que eles desenvolvam um “teste de impressão digital” para verificar os níveis de células T no sangue, o que poderia fornecer indicações precoces de quem poderia desenvolver doenças mais graves.

Mas também oferece a possibilidade de um tratamento específico para reverter esse declínio das células imunológicas.

Manu Shankar-Hari, médico de cuidados intensivos do hospital Guy’s e St Thomas’, em Londres, disse que cerca de 70% dos pacientes que observa em terapia intensiva com covid-19 chegam com 400 a 800 linfócitos por microlitro.

“Quando eles começam a se recuperar, o nível de linfócitos também começa a voltar”, acrescenta.

A interleucina 7 já foi testada em um pequeno grupo de pacientes com sepse e comprovou aumentar com segurança a produção dessas células específicas.

Nesse estudo, ela será administrada a pacientes com baixa contagem de linfócitos em tratamento intensivo por mais de três dias.

Shankar-Hari disse: “Esperamos que [quando aumentarmos a contagem de células]as infecções virais sejam eliminadas.

“Como médico intensivista, eu cuido dos pacientes que estão extremamente mal e, além dos cuidados de suporte, não temos nenhum tratamento ativo direto contra a doença”.

“Portanto, um tratamento como esse no contexto de um ensaio clínico é extremamente encorajador para médicos de cuidados intensivos em todo o Reino Unido”.

A pesquisa também forneceu informações sobre as formas específicas pelas quais a covid-19 interage com o sistema imunológico, o que, segundo Hayday, será vital à medida que cientistas de todo o mundo procuram informações clinicamente valiosas.

“O vírus que causou essa emergência no planeta é único — e diferente. É algo sem precedentes.”

“A razão exata para essa interrupção — a chave nos trabalhos do sistema de células T — não está clara para nós.”

“Este vírus está realmente fazendo algo distinto e pesquisas futuras — que começaremos imediatamente — precisam descobrir o mecanismo pelo qual ele está causando esses efeitos.”

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5 PONTOS PARA ENTENDER PORQUE AS BOLSAS DE VALORES SOBEM E DESCEM TANTO

Com a propagação rápida do coronavírus e a queda do preço do petróleo, o mercado tem operado com grande volatilidade e registrado quedas acentuadas
Nesta semana, as bolsas de valores se comportaram como uma montanha-russa. Foto: Getty Images
Nesta semana, as bolsas de valores se comportaram como uma montanha-russa. Foto: Getty Images
O senhor Mercado é um homem que aposta nas Bolsas de Valores motivado por pânico, euforia ou apatia.

É um personagem imaginário criado por Benjamin Graham em seu livro de 1949 O Investidor Inteligente que, numa interpretação contemporânea, poderia ser descrito como um investidor bipolar, que muda rapidamente do otimismo para o pessimismo.

Graham usa a metáfora para dizer que, no curto prazo, os mercados de ações se comportam como o Sr. Mercado: eles reagem loucamente a más e boas notícias, fazendo com que os mercados subam e desçam como uma montanha-russa.

E é essa volatilidade que estamos vendo agora, com a propagação rápida do coronavírus e a queda do preço do petróleo.

Na segunda-feira, seguindo tendência global de queda, a Bolsa brasileira encerrou o pregão em baixa de 12%. Na terça, avançou 7% e recuperou parte da queda acentuada registrada no dia anterior.

Em meio a esse sobe e desce, muitas pessoas se perguntam como as bolsas funcionam, por que elas desmoronam e se levantam novamente, e qual o impacto na vida da população.

1. O QUE DETERMINA O PREÇO DAS AÇÕES

Um fator-chave na determinação do preço das ações é a expectativa, ou seja, o que os investidores acreditam que poderá acontecer no futuro com aquela determinada empresa, com o setor em que ela opera ou com a economia de um país ou mesmo com a economia global.

"O valor das coisas é extremamente subjetivo", disse Diego Mora, analista sênior da consultoria XTB.

Por exemplo, se você comprar um telefone celular com preço de US$ 1 mil e sair da loja, já não poderá vendê-lo por mais de US$ 700, ele explica.

A expectativa é um fator-chave na determinação do preço das ações Foto: Getty Images
A expectativa é um fator-chave na determinação do preço das ações Foto: Getty Images

No caso das bolsas de valores, inúmeras pessoas avaliam quanto vale uma empresa e, portanto, opinam sobre o preço de suas ações.

"No final, você chega a um tipo de consenso sobre o valor de uma empresa, mas é um consenso que muda de segundo para segundo", diz Mora.

2. O QUE VOCÊ REALMENTE ADQUIRE QUANDO COMPRA UMA AÇÃO?

Uma ação é uma participação em uma empresa que abriu seu capital como uma forma de obter financiamento, geralmente quando ela tem planos de expansão.

Quando você compra as ações de uma empresa, é porque acredita que ela se sairá bem e que você receberá dividendos (distribuição de lucros entre os acionistas) ou até que o preço da ação vai subir e que você terá um lucro quando decidir vender.

O mistério está em quando comprar e quando vender.

E é aí que, além da análise técnica da saúde financeira de uma empresa, o fator psicológico entra em jogo.

"As bolsas de valores são um reflexo psicológico da sociedade" porque se movem em relação às expectativas das pessoas, disse Borja Ribera, professora do mestrado em Bolsa de Valores e Mercados Financeiros da EAE Business School, na Espanha.

Também é possível investir em índices de ações, que são conjuntos de ações de diferentes empresas usadas como referência. Um índice de ações tem um valor numérico, calculado de acordo com o preço de mercado de cada uma das empresas que o compõem. Ele pode representar a evolução das ações de um determinado país ou de um setor.

No Brasil, o Ibovespa é o principal indicador de desempenho das ações negociadas na B3 (antiga BM&FBovespa) e reúne as empresas mais importantes do mercado de capitais brasileiro. O índice, que é resultado de uma carteira teórica de ativos, existe desde 1968 e é reavaliado a cada quatro meses.

Uma ação é uma participação na propriedade de uma empresa que abriu seu capital como uma forma de obter financiamento, geralmente quando ela tem planos de expansão. Foto: Getty Images
Uma ação é uma participação na propriedade de uma empresa que abriu seu capital como uma forma de obter financiamento, geralmente quando ela tem planos de expansão. Foto: Getty Images

Embora existam muitas bolsas de valores e índices no mundo (como o Nikkei 225 - Bolsa de Tóquio, FTSE 100 - Londres, Eurostoxx 50 - Zona do Euro ou o Ibex 35 - Madri), o mercado mais emblemático é Wall Street, em Nova York. Os principais índices são Dow Jones, S&P 500 e Nasdaq, que costumam ganhar as manchetes na imprensa.

Os especialistas geralmente recomendam que os inexperientes que procuram o mercado de ações invistam em um índice antes de concentrar seu dinheiro em uma única empresa, para reduzir o risco de perdas.

Os índices refletem o comportamento da cotação do preço de um grupo de ações, diluindo o risco para o investidor.

3. POR QUE ELES DESABAM?

Se o comportamento do mercado de ações é um reflexo psicológico da sociedade, como afirma Ribera, em uma situação de pânico ou estresse financeiro "os interessados em comprar querem comprar a um preço muito barato e aqueles que querem vender estão dispostos a fazê-lo a qualquer preço".

O surto de coronavírus tem gerado volatilidade nos mercados em todo o mundo Foto: Getty Images
O surto de coronavírus tem gerado volatilidade nos mercados em todo o mundo Foto: Getty Images

E, como o medo alimenta o medo, pode ocorrer o colapso. Isso é explicado pela "psico-trading", ou psicologia do investidor, que se dedicou a investigar esses comportamentos. Se todo mundo quer vender porque teme que as ações continuem caindo, pode haver poucos querendo comprar.

4. É ARRISCADO INVESTIR NO MERCADO DE AÇÕES?

No mundo dos investimentos, é possível fazer uma distinção entre investidores mais cautelosos, como fundos de pensão, e aqueles que buscam riscos.

Os mais conservadores tendem a se refugiar em instrumentos que proporcionam retornos fixos de longo prazo (como os títulos do tesouro dos EUA), porque são mais seguros.

Os investidores normalmente diversificam seus recursos entre ativos financeiros de renda fixa (mais seguros) e ativos de renda variável (mais arriscados), como ações.

"Existe uma relação inversa entre risco e retorno", diz Ribera. "Quanto menor o risco que estou disposto a correr, menor a lucratividade que posso ter."

Os investidores normalmente diversificam seus recursos entre ativos financeiros de renda fixa (mais seguros) e ativos de renda variável (mais arriscados). Foto: Getty Images
Os investidores normalmente diversificam seus recursos entre ativos financeiros de renda fixa (mais seguros) e ativos de renda variável (mais arriscados). Foto: Getty Images

Entre os diferentes perfis de investidores, há também os chamados "especuladores", que buscam ganhar dinheiro em pouco tempo.

Eles apostam nas chamadas "vendas a descoberto", com o objetivo de ganhar dinheiro em minutos. Essa prática é a venda de um ativo que o investidor ainda não possui, esperando que seu preço caia, para então comprá-lo de volta e lucrar na transação com essa diferença. Trata-se de uma aposta no cenário de que o mercado vai cair.

"Os especuladores se beneficiam com essas quedas no mercado de ações", explica Mora."Quanto mais as ações caem, mais dinheiro eles ganham. E os especuladores se aproveitam de qualquer movimento, seja de alta ou de baixa".

Alguns os veem como o "vilão do filme", motivados pela ganância, e outros os veem como os vencedores do jogo.

5. E OS ALGORITMOS COM ISSO?

No mercado de ações, não são só os humanos que investem. Também existem robôs que compram e vendem ações usando algoritmos, em um processo conhecido como "trading algorítmico".

Esses robôs se dedicam à especulação no mercado de ações, seguindo a oferta e a demanda nas bolsas de valores. E eles fazem isso em décimos de segundos.

Hoje há mais transações feitas por robôs do que diretamente por humanos Foto: Getty Images
Hoje há mais transações feitas por robôs do que diretamente por humanos Foto: Getty Images

Os investidores inserem os parâmetros para o robô operar de acordo com certas circunstâncias.

"Posso dizer à máquina: quando isso acontece no mercado, quero que você compre e quando aquilo acontece, quero que você venda", diz Ribera.

O interessante é que atualmente existem mais transações feitas por robôs do que diretamente por humanos. E os responsáveis por inserir os parâmetros na máquina são matemáticos e físicos que se especializaram nessa área.

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Casos sem sintomas ou com sintomas leves “são a chama que mantém a contaminação no Brasil”, avalia especialista

Por Rose Talamone, Jornal/Rádio USP

Cientistas veem Brasil como epicentro da pandemia num futuro próximo e, com dados subdimensionados pela testagem somente de casos mais graves, sem condições reais de enfrentamento

EcoDebate Um dos maiores problemas enfrentados pela ciência de dados no monitoramento do novo coronavírus são os dados mal coletados e restritos, afirma Domingos Alves, professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP e coordenador do Laboratório de Inteligência em Saúde (LIS) que acompanha a evolução da pandemia em Estados e municípios do País.

Para ele, “casos sem sintomas ou com sintomas leves são a chama que mantém a epidemia”, já que não são testados e os infectados não fazem um isolamento restrito.

Os boletins oficiais divulgados diariamente sobre o número de infectados não refletem a realidade da pandemia no Brasil, pois se baseiam nas internações. “Só nesses casos são feitos os testes para detecção do vírus”, alerta o professor. Enquanto os registros oficiais mostravam pouco mais de 165 mil infectados no dia 11 de maio, por exemplo, as projeções dos pesquisadores de Ribeirão Preto chegavam a 2,3 milhões.

Mesmo projetando o País como novo epicentro da pandemia, Alves diz que essas estimativas são feitas sempre para baixo, pois a metodologia empregada utiliza o número de mortes pela doença e não o de infectados. E até esse indicador, feito através dos óbitos, também não reflete a realidade, argumenta, já que ele é igualmente subnotificado. O fato é considerado grave pelos pesquisadores pois as ações de planejamento e as políticas públicas para controle da pandemia dependem de dados reais.

Como exemplo, Domingos Alves cita a diferença entre os números utilizados pelo seu grupo e os levantados pela Universidade Federal de Pelotas, estimando a infecção para o Estado do Rio Grande do Sul. Os pesquisadores gaúchos encontraram, para um mesmo período de tempo, sete vezes mais casos naquele Estado do que os boletins oficiais notificaram. “Eles apontavam o número de infectados em torno de 5,7 mil pessoas, e nós, em torno de 5 mil”, diz.

monitoramento de casos e óbitos confirmados de covid-19
Gráficos encaminhados pelo pesquisador
monitoramento de casos e óbitos confirmados de covid-19
Gráficos encaminhados pelo pesquisador

 

modelo matemático do comportamento da covid-19

monitoramento de casos e óbitos confirmados de covid-19
Casos confirmados no Brasil e em SP; ao contrário da Europa, nós ainda não estamos descendo a curva, muito pelo contrário. Estamos em plena subida

Usando essa metodologia, o professor afirma que não dá para fazer projeções para um futuro mais distante, mas é possível afirmar que os números devem dobrar em uma semana. “Até onde sabemos, tanto no Brasil como no Estado de São Paulo, o número de casos ainda está crescendo num comportamento exponencial. Ou seja, nós não conseguimos ver o pico da epidemia ainda. Então, supondo que o crescimento é exponencial, tanto no Brasil quanto no Estado de São Paulo, esses números devem dobrar num prazo de até uma semana.”

Alves acredita que o afrouxamento das medidas de restrição e mobilidade devem piorar a situação desses números. Para o professor, os municípios devem antes apresentar evidências de que a epidemia está sob controle.

“O número de casos tem que começar a diminuir de maneira sustentável; ou seja, o número de casos caindo em qualquer proporção, num prazo de duas a três semanas, seria uma evidência de que as medidas de contenção poderiam começar a ser relaxadas, mantendo ainda um distanciamento social importante e observando se o número de casos não vão crescer de novo.”

Segundo Alves, os municípios de Campos do Jordão e São Sebastião, no Estado de São Paulo, são exemplos de locais que estão monitorando corretamente a pandemia. São Sebastião está testando a população e, ao encontrar casos suspeitas ou confirmados, as pessoas são colocadas em isolamento.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 21/05/2020

Covid-19 – Casos sem sintomas ou com sintomas leves ‘são a chama que mantém a contaminação’ no Brasil, avalia especialista, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 21/05/2020, https://www.ecodebate.com.br/2020/05/21/covid-19-casos-sem-sintomas-ou-com-sintomas-leves-sao-a-chama-que-mantem-a-contaminacao-no-brasil-avalia-especialista/.
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